(Jun/2016) - Direitos


Durante muitos anos, participei da administração de Direitos Autorais. Fui diretor da União Brasileira de Compositores (UBC), uma das sociedades que compõem o Ecad. A luta que nós, compositores profissionais, encetamos para mudar a mentalidade amadorística do passado foi gigantesca.

Digo amadorística no que tangia à cobrança de pagamento de direitos por parte dos usuários de música. Mas, ouso dizer, nada amadora por parte de alguns antigos dirigentes que se locupletaram com o direito dos autores. Contudo, depois de muita luta, conseguimos transformar as Sociedades e o Ecad em órgãos sérios e confiáveis.

Hoje em dia, os compositores participam da supervisão dos seus negócios, mas têm um estamento de profissionais para conduzi-los com eficiência. Agora, vem aí outra vez o Estado a se meter no que não é da sua alçada, ao menos na minha percepção.

O negócio é que, graças a uma lei feita às pressas, o Ministério da Cultura terá o direito de fiscalizar o Ecad e as Sociedades, que são entidades particulares. Sabem qual é o objetivo disso tudo? Participar, pouco a pouco, da arrecadação e distribuição do direito de execução pública de música. Podem escrever o que eu digo: vão criar algum conselho para meter a mão no dinheiro do autor. E também do contribuinte, pois isso vai virar um cabide de empregos.

Pois bem, todo esse absurdo aconteceu devido à alienação de muitos compositores que se deixaram levar por um tal de “Procure Saber”, formado por gente que acha que sabe tudo, mas não sabe de nada.




(Jul/2016) - Nada


Recentemente, meu amigo Sergio Lott exclamou peremptoriamente: “Sabe o que eu sou? Nada”. Depois, instigou seus companheiros a dizerem a mesma coisa. Levando tudo no bom humor, mas sem a mesma convicção, seus camaradas repetiram a expressão.

Confesso que no primeiro momento levei um susto. Afinal, uma pessoa dizer que não é nada representa sempre um perigo para si mesma.

Tal afirmativa remeteu-me a um livro de Jean Paul Sartre, intitulado ”A Infância de um Chefe”, em que um personagem dizia não existir, ou seja, era um “nada”, passando a considerar a possibilidade de se suicidar.

Em seguida, comecei a meditar na frase do meu amigo Lott.

Deduzi que o objetivo de sua surpreendente assertiva era outro, tendo em vista que se trata de um homem que fez brilhante carreira de aviador como comandante da Varig e oficial da Força Aérea Brasileira. E que sempre revelou em seus pensamentos uma profunda reflexão filosófica sobre a vida.

Então, o que estaria no contexto de tal inquietação?

Simples: é que quando uma pessoa se define exclusivamente como uma coisa só, exclui-se de tudo o mais que pode e deve ser na vida.

Em outras palavras, exemplificando:

Por que um médico não pode ser também poeta? Por que um juiz não pode ser também músico? Por que um advogado não pode ser também jardineiro? E por aí vai...

Foi quando entendi a “filosofia” do meu amigo: quando uma pessoa diz que não é nada, abre-se para ela a possibilidade de ser “tudo”.

Ao menos de ser tudo que ela sonha.

Para finalizar, devo dizer que, no livro do Sartre, o personagem, que na juventude duvidava de sua própria existência, acabou por se tornar um importante empresário, com incursões na política da França.

Se não era isso que Sergio Lott queria dizer, que me perdoe, e me conteste.




(Ago/2016) - O cachimbo da paz


O homem acende seu cachimbo. Senta-se na sua poltrona favorita e se põe a pensar no mundo. Já viu muitas coisas, mas não entende mais nada.

Paris, que, junto com Roma, é um dos mais ricos repositórios de obras artísticas e sempre atraiu escritores e humanistas, tornou-se alvo de terroristas.

Hoje em dia, é uma cidade amedrontada, em que o simples ato de pegar um metrô exige atenção e cautela. É o fantasma do terror.

O homem passa a mão nos seus cabelos brancos. Decepção, nunca imaginou um mundo assim. Lembra-se de quando andou pelo Marrocos, acordando bem cedo em Marrakech para ouvir o Imã concitando os islâmicos a rezar.

Lá estava o religioso a pregar no alto da mesquita, e o povo ajoelhado na rua.

Nada de violência, apenas orações. A poucos metros dali, uma igreja cristã ortodoxa.

Convivência em paz. Depois, lembrou-se do encontro com um teólogo islâmico que lhe explicou que islã significa obediência a Deus e, na despedida, lhe disse: “peça ao seu Deus por mim”.

Pensamento viajando, depois de algumas baforadas, lembrou-se de Jerusalém, onde judeus, árabes e cristãos coabitam na cidade santa.

Lá, se a convivência não é absolutamente pacifica, ao menos há respeito. Estava escrito em uma parede: “Somos todos filhos de Abraão. Somos irmãos em Abraão”.

Agora, o homem de cabelos brancos lê em um jornal: terrorismo, Jihad, Estado Islâmico, ataques na França, na América, na Bélgica, Alemanha, Afeganistão, em Israel, ameaças de morte pelo mundo todo.

Conclui melancolicamente que isso não tem nada a ver com religião, não se trata de nenhuma guerra santa. Mais provável é que tenha sua origem na história da formação dos novos e artificiais estados árabes, lá pelo começo do século passado, durante a Primeira Guerra Mundial.

Alguns desses estados sentiram-se enganados pelo ocidente e caíram nas mãos de ditadores que usaram a religião como instrumento de vingança. Talvez esteja aí a semente para a formação desse terrível “Estado Islâmico”.

É a violência gerando violência.

O cachimbo da paz se apagou.




(Set/2016) - Mentiras


É impressionante como a realidade e a imaginação acabam por se confundir, e a literatura, sem dúvida, tem parte importante nisso. Umberto Eco, no seu quarto romance, intitulado “Baldolino”, inventa um personagem de mesmo nome e o introduz na corte do imperador Frederico I, o Barba Ruiva, lá pelos anos de 1152. Claro que é uma farsa, uma brincadeira, mas já ouvi alguns jovens na Itália dizerem que Baldolino realmente existiu, talvez com outro nome.

Ainda na Itália, sempre me causou surpresa a quantidade de pessoas que, em Verona, se acotovelam embaixo do balcão de Romeu e Julieta, sonhando que tais personagens de Shakespeare realmente existiram. No fundo, sabem que é uma obra de ficção, mas querem acreditar.

Enquanto isto, em Londres, não são poucos os turistas que procuram a casa onde teria vivido Sherlock Holmes, o genial detetive criado por Conan Doyle.

E o que dizer de Don Quixote, extraordinária criação de Cervantes? Há alguns anos, fizeram uma consulta popular em Madri para saber quem era o espanhol mais famoso do país. Sabem quem ganhou? Don Quixote, que, na verdade, nunca existiu, pois brotou da imaginação de Miguel de Cervantes.

No Brasil, temos Machado de Assis e sua engenhosa obra Dom Casmurro, com a misteriosa personagem Capitu. Quantos debates, quanta discussão sobre a questão da suposta infidelidade de Capitu. A verdade é que Machado morreu, e sua personagem Capitu jamais confessou a possível traição.

O escritor americano Scott Fitzgerald dizia que seus personagens eram ficcionais, mas sempre baseados em pessoas reais. Em outras palavras, eram meio reais. E é aí que entra um critico inglês que dizia que os escritores são os maiores mentirosos do mundo, mas suas histórias ficam e

se incorporam à realidade.

Conclusão: nem sempre a mentira tem pernas curtas. Às vezes, são bem longas.




(Out/2016) - Normandia


Uma das melhores regiões para se viajar de bicicleta é a Normandia, noroeste da França. Com um GPS, fica fácil encontrar estradinhas que levam a Honfleur, St Michel, Trouville, Calais e uma porção de lugares nas proximidades do Canal da Mancha.

Contudo, não há como evitar a tristeza de estar em lugares que foram palco da Segunda Guerra Mundial. Quantos jovens perderam a vida devido à estupidez dos homens, principalmente de Adolf Hitler, com seu delírio megalômano de conquistar o mundo através do uso das armas.

Lá estão inúmeros cemitérios, milhares de cruzes, museus que mostram as atrocidades dos conflitos, crateras no solo onde caíram bombas devastadoras, canhões, bunkers, casamatas, e tantos outros atestados da violência dos embates.

Houve um momento em que parei em um penhasco em Calais e fiquei imaginando o desembarque dos aliados, sendo metralhados pela artilharia de Hitler. Desbancaram os germânicos, mas à custa de muitas mortes. Mas, há também a beleza das construções humanas, como Saint Michel que extasia todos que lá vão.

Mais afastado está Rouen, com sua magnifica catedral de Notre Dame, com seus museus, com sua rica história, sobretudo de Joana D'Arc.

Conclusão: vale a pena viajar pela região, seja de carro, de moto ou de bicicleta. Eu prefiro a bicicleta.

Depois pegamos um trem e fomos descansar em Paris, que ninguém é de ferro.

E foi lá que me aconteceu uma coisa curiosa: tenho mania de andar pelas margens do Rio Sena, para comprar livros velhos nos "sebos".

Nesta minha andança, encontrei "Os Pensamentos de Pascal", que sempre quis ler. O exemplar que comprei tem as páginas amarelecidas, algumas rasuradas, porém o mais interessante é que no meio do livro havia duas folhas datilografadas pelo antigo dono do livro.

Nessas folhas ele se queixa da vida, fala da miséria em que está e de sua busca por Deus.

Parece que estava em um estado tão deplorável que vendeu o livro para o livreiro sem retirar o que tinha escrito.

Essas duas folhas datilografadas, um tanto enigmáticas, tornaram-se para mim tão atraentes como o livro de Pascal.




(Nov/2016) - Amor na internet


Tenho uma grande amiga, escritora e psicóloga, que jamais desistiu dos seus sonhos. Amante da música clássica e da popular, não perdia jamais um concerto da Orquestra Sinfônica Brasileira, no Teatro Municipal, nem os shows de boa música popular. Gostava de recitar trechos de poesias que a encantavam. Foi sempre namoradeira e romântica. Casou várias vezes, mas os casamentos não duravam muito. Contudo, jamais abandonou a ideia de ter um bom casamento.

Já aos sessenta anos, iniciou uma interlocução internética com um americano de setenta anos. O idioma não foi problema, pois minha amiga fala inglês fluentemente. Trocaram poemas, letras de música e frases bonitas encontradas em escritores que ambos admiravam.

Certo dia, me consultou se poderia fazer uma tradução da minha canção com Marcos Valle, "Preciso Aprender a Ser Só", e mandar para seu correspondente.

Achei uma ousadia, porque ela escolheu uma parte da canção que diz "ah, se eu te pudesse fazer entender / sem teu amor eu não posso viver / que sem nós dois o que resta sou eu / eu assim tão só".

Ousadia, não por me pedir autorização, mas por mandar palavras tão candentes para uma relação que mal começara.

Mas, o amor é o amor! O americano mandou-lhe um poema de volta e convidou-a para visitá-lo na sua pequena cidade nos Estados Unidos. Duas pessoas maduras: ele, viúvo; ela, várias vezes separada.

E não é que deu certo? Ela vendeu o que tinha no Brasil e foi morar com seu amado na América.

Estão juntos até hoje.

Amor de internet.




(Dez/2016) - Devaneios


Como o mundo anda muito confuso, deixei meu pensamento viajar para o Caminho de Santiago, na Espanha, por onde já “peregrinei” várias vezes. E como o leitor talvez esteja igualmente saturado dessa confusão toda, convido-o a seguir comigo pela “rota santa”:

“A cinquenta quilômetros de Burgos está St Domingo de Sillos, onde se ouve o canto gregoriano, tão belo como o do Monastério do Leyre.

Eu já ouvi o canto gregoriano em muitos lugares, inclusive em Paris, na Catedral de Notre Dame, acompanhado por órgão, mas nada se compara à pura sonoridade da voz humana, sem acompanhamentos, intercalada pelos silêncios, como se faz nessas regiões da Espanha. A forma de reger do maestro era absolutamente inusitada: quando era para o coro cantar, levava as mãos à altura do pescoço e gesticulava como quem imitava fala desenfreada; quando queria pausa, juntava as mãos em forma de oração.

Agora, meu pensamento se volta para a Catedral de Burgos. Lá eu poderia imaginar encontrar qualquer coisa, menos novos cavaleiros do Santo Sepulcro sendo sagrados pelo bispo na catedral. E não estarei exagerando se disser que o ambiente em tudo lembrava os tempos medievais: a catedral escura, os rostos gravíssimos, as capas aveludadas, os chapéus apenachados.

Eu me sentei em um banco, na parte lateral da igreja, e fiquei observando a cerimônia. O religioso falou sobre a nobre Ordem de Cluny, na guerra contra os infiéis, na libertação do santo sepulcro, nas cruzadas, como se tudo aquilo ainda estivesse acontecendo. Depois, passou a palavra a outro padre, que trouxe a história para dias mais recentes, lembrando aos cavaleiros que a luta agora é contra a fome e a miséria.

Seguiu-se a investidura dos cavaleiros, que se ajoelhavam e tinham a espada tocada em seus ombros, enquanto proferiam o juramento de fidelidade à Igreja, de defendê-la até a morte, se preciso.”

Terminados esses devaneios, meu pensamento volta para os dias atuais, para a confusão que se instaurou no mundo. Ou será que foi sempre assim?




(Jan-Fev/2017) - O professor


Há poucos dias, encontrei um velho amigo, professor aposentado da rede estadual. Denotando fadiga e preocupação em seu semblante, puxou uma conversa comigo:

"Sabe do que estou vivendo? De salários atrasados, pagos parceladamente, e das minhas parcas reservas, que já estão a minguar. Nunca pensei que, aos oitenta anos de idade e depois de tantos anos de trabalho, fosse passar por isso. Minha mulher, que também é professora aposentada, está na mesma situação. Já começamos a economizar até na comida".

Cheguei a pensar que iria me pedir dinheiro emprestado, mas, ele, homem altivo e orgulhoso, só em caso extremo faria isso. Posso dizer tal porque conheço bem o meu velho amigo.

O que ele queria era desabafar, externar a revolta por sua humilhante situação.

E continuou: "incompetência e roubalheira. Assim é o Brasil de hoje. Como professor retirado, fico pensando na dificuldade do educador atual, e dos pais, para ensinar os jovens”.

Dizer o quê? Que todo político é ladrão? Não se pode afirmar tal coisa; primeiro, porque há exceções; segundo, porque toda generalização é perigosa. Mas que a maioria o é, disto não tenho dúvida.

Meu amigo enxugou o suor do rosto e prosseguiu:"é coisa básica na Educação ensinar o respeito às instituições e principalmente à Justiça. Mas, o que dizer quando se vê o presidente do Senado fugir de uma citação do Supremo Tribunal Federal e se esconder do oficial de Justiça? E o pior é que tudo ficou por isso mesmo. Vendo tais coisas, como reagirá o jovem no futuro? Será que seremos um país de Cunhas, Renans, Cabrais? Será que continuaremos a ver empresários inescrupulosos em conluio com políticos desonestos a saquear o país?".

Despedi-me do meu amigo, pensando: que país injusto.




(Mai/2016) - Sim ou não


Segundo alguns, o ex-presidente da França, Charles de Gaulle, teria dito, certa vez, que o Brasil não era um país sério. Na realidade, o autor da frase é o diplomata brasileiro Carlos Alves de Souza Filho, embaixador do Brasil na França entre 1956 e 1964, que relatou o caso em seu livro Um embaixador em tempos de crise (Livraria Francisco Alves Editora, 1979). Acho que ele queria dizer que o Brasil é um país infantilizado, com políticos incompetentes e preocupados unicamente com suas carreiras.

Isso foi dito há muito tempo, mas parece se encaixar perfeitamente nos dias de hoje.Vimos, recentemente, um show de asneiras na Câmara dos Deputados, naquele capítulo do impeachment da presidente Dilma.

O que deveria fazer o deputado? Votar, simplesmente, “sim ou não”.

Mas, qual... foi um tal de votar pela mãe, pela mulher, pelo pai, pelo filho, pelo “Espírito Santo”, pelo “papa”, pelo “pastor”, pelo “rabino” e sei lá por mais quem.Tudo isso porque o sujeito quer aparecer, nem que seja só para dizer besteira.

Mas, nesse festival de idas e vindas sobre o impeachment da presidente, a Câmara não é o único protagonista. O próprio Supremo Tribunal Federal, ao se pronunciar sobre o rito a ser seguido, foi extremamente confuso.

Não digo que os ministros da elevada corte devessem apenas dizer “sim ou não” às consultas feitas. É um assunto complexo que sempre merece algumas considerações à luz da Constituição Federal. Mas, estando o povo altamente interessado nas decisões de suas excelências, por que não usar uma linguagem mais simples para que todos entendessem?

Há ministros que usam frases tão empoladas que só aumentam a confusão. Às vezes fica a impressão de que só o aposentado ministro Barbosa, e que não participou dessas consultas sobre o impeachment, tinha consciência de que o STF, a despeito de sua importância institucional, julga para o povo, fala também para as ruas e tem obrigação de se fazer compreendido pelo povo.

No julgamento dos mensaleiros, Joaquim Barbosa foi claro e sintético, demonstrando que um bom juiz tem que saber dizer “sim ou não” com clareza, sem subterfúgios.

Quanto ao impeachment da senhora Dilma, é golpe? Responda “sim ou não”, se possível.




(Abr/2016) - Descontrole


Vamos falar a verdade: é muito difícil a convivência dos europeus com os migrantes asiáticos. A diferença cultural é imensa, mas a maioria dos estados europeus quer demonstrar seu espírito democrático e humanitário, dizendo que deixa a porta aberta para todos.

E é aí que mora o perigo. Hoje em dia, não há como fugir a um forte controle na imigração e serviços de inteligência conectados. Não é possível deixar alguém chegar à fila do check-in sem ser observado. Ainda mais quando a pessoa chega com objetos suspeitos.

Lembro-me bem que, ao nos apresentarmos no aeroporto Ben Gurion em Tel-Aviv, após vários dias pedalando em Israel, fomos inspecionados antes do check-in. Ou seja, antes de passarmos pelo controle da Polícia. Perguntaram-nos se portávamos algum objeto comprado em Israel. Diante de nossa negativa, perguntaram se tínhamos recebido algum presente. Naquele instante, lembrei-me que nosso guia ciclístico, a caminho do aeroporto, nos presenteara com um ladrilho em mosaico feito por sua irmã.

De nada adiantou dizermos que o guia, além de ciclista, era um ex-capitão do exército de Israel. Examinaram o objeto e informaram-nos que não poderíamos embarcar com ele. Alguém poderá obstar que foi um exagero, mas, hoje, depois dos acontecimentos na França e na Bélgica, acho que fizeram a coisa certa. Afinal, regras são regras, sobretudo as de segurança neste insano século em que estamos vivendo. Contudo, devo dizer que, antes de embarcarmos, ainda na sala de espera, devolveram-nos o nosso objeto, pedindo a nossa compreensão. Talvez seja isso que está faltando em alguns países da Europa: exagero no controle.

É melhor perder algum tempo sendo inquirido e examinado, do que explodir no saguão, junto com um homem-bomba.

O resto, certamente o mais importante, é uma conexão entre o Serviço de Inteligência dos países europeus. O mais grave é que o presidente da Turquia já advertira a Comunidade Europeia sobre os terroristas de Bruxelas, e nada foi feito.




(Mar/2016) - O nome da rosa


Depois da morte de Umberto Eco, recomeçou-se a falar muito dos seus livros.

O notável escritor italiano ficou conhecido sobretudo por seu romance “O Nome da Rosa”, que inspirou o filme do mesmo nome e fez sucesso no mundo inteiro. Contudo, pelo que leio agora nos jornais italianos, sua obra mais citada é “Obra Aberta”, escrita, se não me engano, lá pelos anos sessenta.

Comprei o livro em Roma, li e reli, pois não se trata de leitura fácil. Pelo que entendi, Umberto Eco propõe que uma obra de arte, seja literatura ou música, nunca está completa.

Está sempre aberta para que o leitor ou o ouvinte a complete, segundo sua própria interpretação.

Claro que não pretendo aqui fazer uma análise da obra, o que seria cansativo e pretensioso. Mas, puxando a brasa para a minha sardinha, lembrei-me de alguns fatos que vivenciei, e de outros que tomei conhecimento. Conto: havia uma cantora que nunca acertava o tom da música. Não era propriamente desafinada, vamos dizer que “batia na trave” em algumas notas. Quando o compositor chamou sua atenção para a impropriedade, ela retrucou que era assim que sentia a música. É minha interpretação, afirmou. E o disco saiu assim mesmo.

Outro caso foi o de um poeta famoso que, lendo um comentário interpretativo de um de seus poemas, constatou que não era nada daquilo que ele havia escrito. Admitiu, no entanto, que aquilo era compreensível, por ser a poesia uma arte complexa e cada um a entendia do seu jeito. Aliás, Carlos Drummond de Andrade dizia que a poesia não deveria ser interpretada. Se o leitor não gostasse do poema, que o deixasse de lado para futura leitura.

E o que dizer da obra de Joyce? Já ouvi as mais diferentes análises do seu livro “Ulisses”.

Agora, eu me pergunto: era isso mesmo que Umberto Eco conceituava como obra aberta? Sei lá, se não for, me desculpe, mas é a minha interpretação. Afinal, obra aberta é obra aberta.




(Jan-Fev/2016) - O poeta


Sempre achei Hildon meio esquisito. Poucos amigos, sempre inventando amores impossíveis, sua única paixão era a poesia. Dizem que já havia escrito mais de mil, mas nunca se interessara por publicar nada. Bastava-lhe a oitiva de algum amigo para seus escritos.

E assim andava pelos bares de Copacabana, os bolsos cheios de resmas, esperando que algum companheiro lhe solicitasse a declamação. Uma dia, conheceu Virna, no Cervantes, e, antes que a noite terminasse, já estava apaixonado. E tome de poemas; a cada encontro, ele lia um para a moça, a quem considerava sua musa inspiradora.

Após algum tempo desse romance platônico, desconfiado do pouco interesse de Virna, ousou perguntar-lhe se gostava de poesia, no que recebeu como resposta um solene “não, acho isso tudo uma chatice, não entendo nada”.

Decepcionado, Hildon resolveu parar de escrever, tornou-se taciturno e, pior ainda, começou a sentir umas dores pelo corpo. Procurou um médico, que lhe perguntou que parte do corpo doía, mas nem ele sabia precisar, eram dores generalizadas. No corpo todo. Exame pra cá, exame pra lá, a medicina não descobriu nada. Foi então que doutor Fernando, competente psicanalista e velho amigo de Hildon, dispôs-se a curar o poeta. Após poucas sessões de terapia, veio a recomendação: “uma poesia por dia, você não podia ter parado; se parar, morre”.

A principio, Hildon seguiu a receita à risca. Chegou mesmo a recitar seus poemas em um sarau em Ipanema. Parecia curado, não sentia mais dores.

Mas bastou encontrar Virna aos beijos com um coroa para parar de escrever. Confessou aos poucos amigos não ter mais inspiração.

Pouco tempo depois, foi encontrado morto no seu apartamento.

Morreu por falta de poesia, foi a conclusão do doutor Fernando.




(Dez/2015) - Pensamento


Gosto de deixar meu pensamento “voar”, quando estou pedalando em trilhas dentro de florestas. Isso já me aconteceu várias vezes, tanto na Bocaina como nas florestas do sul da Alemanha.

Em vez de “voar”, eu poderia dizer “filosofar”, mas aí seria um pouco de pretensão. Contudo, pretensão mesmo é a do ser humano de se julgar o centro do mundo, ao ter criado a teoria antropocêntrica. Papo-furado. No meio da mata, entre a Alemanha e a Dinamarca, vejo um mundo perfeito: as plantas se desenvolvem, os animais buscam seus alimentos, o pequeno rio desliza na calmaria, os peixes nadam quase na superfície da água, as árvores filtram o sol com suas copas. Mas, e eu, o que sou neste paraíso? O que faço aqui? Não consigo evitar o pensamento de que sou um intruso, um representante da espécie humana, a mais deletéria, a mais destruidora que existe no planeta. Mesmo na Alemanha, país que atualmente se preocupa com o meio ambiente e procura protegê-lo, já houve uma grande destruição de suas florestas.

E assim segue minha bicicleta pelas trilhas, e também pelo tempo, levando meu pensamento para o Rio de Janeiro. Minha bicicleta é mágica, e meu pensamento é delirante. Quanta destruição, quanto descuido com a natureza em nossa cidade, amigo leitor.

Lembrei-me de estar, certa vez, pedalando na companhia de um triatleta americano, que me perguntou se costumávamos nadar nas lagoas da Barra da Tijuca.

“Só se for para pegar uma hepatite ou uma doença de pele”, respondi-lhe, constatando a decepção no olhar do companheiro. E assim segue nossa cidade, com essas obras intermináveis, caríssimas, a enlouquecer seus habitantes. Enquanto isso, obras de “maquiagem” são feitas no sistema lagunar. O canal do Pepê, no inicio da Barra, é um nojo na maré vazante. O bosque de Marapendi exala mau cheiro, afastando corredores, caminhantes e mães com seus filhos. Como disse meu amigo triatleta, “uma cidade tão bonita não merecia isso”.

E os pobres jacarés-de-papo-amarelo que nos perdoem.





sítio bistrô esperança
samy schuh motorcycles
natura_reka.jpg
ipiranga_160_160.jpg
sociedade educacional ramos pinto

© 2019 by Reka Moraes Art Design.

Paulo Sérgio Valle  Tour

Barra da Tijuca, Recreio dos Bandeirantes e Vargem Grande - RJ    jornal@tipocarioca.com.br   Tel: 55 (21) 2490-0328 / 99124-0185