(Jun/2016) - Tonico é o cão


Dizem que “homem é bicho bobo”, quando o assunto é mulher. Já desconfiava da veracidade desse ditado, mas domingo passado pude comprovar.

Sempre que faço minha caminhada matinal pela orla da praia, deparo-me com uma jovem bastante simpática fisicamente. É, fisicamente, pois ainda não a conhecia para concluir se há simpatia por completo. Entretanto, minha criatividade e esperteza – que achava que tivesse – me fizeram ter uma ideia para dar um passo à frente de tal descoberta. Ela estava sempre acompanhada de sua cadelinha. Não entendo nada de cachorros; na verdade, nada de nenhum animal de estimação, mas cheguei à conclusão da sexualidade devido à quantidade de laçarotes cor-de-rosa que a dócil peluda portava. Pareciam enfeites carregando uma cadela, e não o contrário. Ideia: arrumar um cachorro emprestado para puxar assunto e, daí pra frente, seria bem mais fácil. Porém, faltava-me o principal.

Sou residente novo no prédio em que moro. Conheço pouca gente, e a única que tem um cachorro que eu poderia pegar “emprestado” é uma senhora do terceiro andar. Deveria ter uns oitenta e poucos anos, e sua única companhia era o tal cão. O bicho era feio, mas era o que tinha. Acho que era pequinês. Pequeno e com a cara bem enfezada. Pelos arrepiados e meio amarelados. Feio. Bastante. A velha era ranzinza que só ela, mas era a minha única chance. E seria a oportunidade de ela retribuir todas as vezes que a ajudo a subir com as bolsas de compras. Na verdade, foram só duas.

Manhã de domingo. Toquei a campainha. Ela me atendeu com a mesma cara de sempre. Acho que a fisionomia dela é congelada. Pior que eu não lembrava seu nome, mas era o meu dia de sorte:

– Como está a senhora? Estava passando aqui pelo andar e lembrei que mora só e poderia estar precisando de alguma ajuda.

– O rapaz apareceu em boa hora. Preciso levar Tonico para passear, fazer suas necessidades, porém minha artrose está atacada desde a noite passada.

– Faço questão de levá-lo, minha senhora! Não se preocupe. Seu cão terá o passeio mais divertido de sua pequena vida canina!

Ela trouxe o canicho e me entregou pela coleira, fazendo recomendações. Ele me apontou um olhar indômito, mas segui em frente, e partimos para nosso passeio matinal pela orla, em busca da garota dos meus sonhos.

Em menos de dez minutos de caminhada, avistei a minha futura sedução, com sua fiel cadelinha. Eu já estava com o roteiro pronto na cabeça para abordá-la da maneira mais sutil possível, para ter sucesso na conquista. Mas Tonico parecia saber o meu interesse. Quando estava a mais ou menos uns quatro metros dela, o rabugento se contorceu todo no chão, escapando da coleira. Parecia que estava com vaselina no pescoço. Escapuliu e correu para o meio da rua, e lá fui eu atrás dele, deixando para trás a gata e sua cadelinha, que riram da situação. Isso mesmo, riram, pois até a cadela parecia entender que eu estava sendo sacaneado por aquele vira-latas.

Depois de uns vinte metros correndo atrás do cão, um carro deu uma freada brusca, quase nos atropelando, e, em consequência, ocorreu um engavetamento de mais três carros. Aí, eu fiz questão de correr também. Tonico se jogou para o acostamento e seguiu sua fuga. Mais à frente, o danado ainda bloqueou a passagem de um ciclista, que se estatelou na pista, fora o skatista que se jogou no canteiro, para também se ralar no asfalto. Depois de alguns bons metros, finalmente consegui agarrar o fugitivo, que como se não bastasse, o filho da mãe deu uma dentada na minha mão. Prendi-o na coleira novamente. Fiquei até com medo de enforcar o bicho.

De volta pra casa. Derrotado. Nunca tinha corrido tanto na minha vida, sem falar na vergonha que passei. Acha que acabou? No final, quando estava esperando o semáforo ficar vermelho, para atravessar em frente ao meu prédio, um guarda municipal bateu no meu ombro e me entregou uma multa por não ter limpado as fezes que o bicho fez metros atrás. Fezes que nada! É chique demais pra ele! Uma praga dessa faz mesmo é cocô.




(Jul/2016) - Oportunidade única


É melhor se arrepender de algo que se fez, do que daquilo que se deixou escorrer pelas mãos. Na vida, há coisas nas quais precisamos ser rápidos; caso contrário, a perda pode ser irreparável, ainda mais dependendo da situação em que você se encontra. Estava catando umas moedas nos cantos de casa para tentar comprar um comprimido para a dor de cabeça que não me deixava há uns longos dias. Virou companheira neste momento de desemprego. Já havia quase um ano. As economias já estavam no fim, e o que sobrava não poderia ser desperdiçado com coisas supérfluas. Não que um remédio o seja, mas o primordial é a comida. Chegando à farmácia, solicitei o medicamento ao farmacêutico, que foi buscá-lo. Nesse momento, ouço uma voz baixa quase sussurrar em meu ouvido:

– Bom dia. O rapaz é casado?

Antes de me virar para ver quem era, pensei com meus botões: nunca ouvi uma pergunta dessa, ainda mais a essa hora da manhã e, além do mais, de uma estranha.

– Bom dia, senhora. O que disse?

– Perguntei se é casado – repetiu.

– Não, senhora. Mas... Por que pergunta?

A mulher deveria ter pra lá de sessenta anos. Bem vestida, cheirosa; pela chave que portava na mão, deveria ter um bom carro, gostava de joias. Porém não me pareceu que foi uma bela jovem.

– Papai está à beira da morte. No CTI. A qualquer instante, pode passar para o lado de lá.

– Sinto muito, senhora, mas não compreendo o que isso tem a ver com o questionamento que me fez.

O farmacêutico me trouxe o remédio, agradeci e me dirigi ao caixa, para efetuar o pagamento. Ela se calou e foi me seguindo, sem falar nada. Paguei e, ao chegar à saída, ela continuou:

– Sou filha única. Papai é dono de três fazendas em Goiás. Inúmeras cabeças de gado. Mas há um agravante: tenho um primo que trabalha com ele há anos, e papai sempre me disse que, se eu não casasse, primo Pedro seria o único herdeiro de tudo.

Parei e pensei. A cabeça entrou em ebulição, e cochichei subitamente com meus botões: será que ela me quer como seu marido, de modo a herdar toda a bufunfa do velho? Será o fim do desemprego para todo o sempre? Serei eu o novo rei do gado? Joguei os olhos, sem mover o rosto, para os pés da velha rica e fui subindo bem devagar avaliando mais um vez a figura. Meu olhar chegou aos seus olhos, que pareciam duas jabuticabas tristes e pidonas. A velha era bem feia.

– E a senhora está me chamando para ser seu marido e ajudá-la nesse seu dilema milionário? Mas eu só tenho 23 anos, a senhora tem certeza disso?

– Aparentemente, pareces ser uma pessoa boa. Você não sabe, mas sou tua vizinha, venho te observando há algumas semanas, desde que papai entrou em coma. Perguntei aos poucos conhecidos do nosso prédio, assim como ao porteiro, e falaram muito bem de ti. Como não tenho muitos amigos, e os que tenho são interesseiros, resolvi te procurar para fazer tal proposta. O que me diz?

– Eu não sei... Como posso responder a algo assim, de supetão? Isso mudaria minha vida completamente!

– Sim, mudaria, e para beeeeem melhor! Faz o seguinte, meu príncipe, eu não posso demorar muito para resolver isso: toque no 302, até hoje à noite, no máximo, com sua resposta. Fico aguardando. Vou visitar papai.

A velha me deu um beijo encharcado de batom na bochecha, atravessou a rua, entrou na sua Mercedez, e saiu. Voltei pra casa, e a dor de cabeça só aumentou com a tamanha confusão em que ela ficou com a proposta indecente da vizinha endinheirada e, após longas horas de fumaça saindo da cachola, achei melhor não perder essa oportunidade única de ser rico e não precisar mais ficar correndo atrás de emprego, neste país que só desanda. Toquei a campainha do bendito apartamento por mais ou menos uns cinco minutos, e ninguém me atendeu. Desci até a portaria e perguntei ao Zé se ele tinha visto a dona chegar.

– Chegou sim, era por volta das 17h, vice! Estava toda triste e, ao mesmo tempo, com um sorriso arretado naquela boca torta e vermelha. Parece que o pai tinha falecido, e ela tinha ido ao cartório horas antes, para se casar com o primo Pedro. Saiu com três malas abarrotadas de roupas e disse que mandava buscar o resto outro dia. E ainda me deixou quinhentos reais de gorjeta, só por eu ter ajudado a colocar as malas no carro! Eita velha porreta, hein!?

Subi e voltei a procurar mais moedas. Precisei de muito mais remédios, depois de mais essa paulada.




(Ago/2016) - Precipitação


Boatos nos corredores dos ambientes de trabalho sempre têm um fio de veracidade. E na empresa em que trabalho – ou melhor, em que trabalhava – não é diferente. Demissão de mais de dez por cento da folha de pagamento: este era o assunto da vez.

– Parece que irão cortar quase todos os chefes!

– Carlinhos me disse que Ricardo falou que Bartolomeu soube que não restará ninguém na nossa seção!

– Amélia disse que tem gente que já está arrumando as gavetas, pois já conta com sua dispensa!

– Tá sabendo não? Venceslau parece que será transferido pra São Paulo e, se não quiser, irá pra rua!

Ouvia-se de tudo um pouco. Até os mais otimistas estavam desacreditados desta vez. Já haviam acontecido demissões, mas não do porte que tais rumores desfilavam pelos corredores. O negócio seria feio, pelo visto. Uma coisa era certa: meu chefe não ia com a minha cara. Dizem as fofoqueiras línguas que era medo de perder o cargo para mim, mas nunca levei isso em consideração. Isso me levou a crer que meu emprego estava na reta. Ele não deixaria escapar essa chance de me eliminar. E isso não era só percepção minha.

– Não quero fazer intriga, mas escutei o chefe falando seu nome ao telefone. E, o pior, a conversa era com a Denise, do RH! – falou-me um colega.

Isso acabou de me derrubar. A pequena esperança que tinha se foi depois dessa notícia. Comecei a fazer como alguns, juntei meus pertences e coloquei na mochila.

Entretanto, uma noite antes do dia fatídico, em casa, pensei com meus botões que isso me permitiria fazer uma coisa que sempre tive vontade. Logo cedo, às oito horas da manhã, ao chegar à lida, já havia colegas sendo chamados para se apresentar ao RH. O clima estava horrível. Para completar, meu chefe me desejou bom dia com um sorriso bem irônico. Não pensei duas vezes em pôr em prática o que me restava: esculachar aquele otário!

Passei graxa marrom no assento da cadeira daquele carrasco, coloquei cinco sachês de sal na sua garrafa de água, aproveitei que ele deixou a conta do correio eletrônico aberto, sem bloquear o computador, e enviei um e-mail cantando a secretária e outro avacalhando o diretor, e, por último, fiz uma montagem de uma foto dele, deixando-o com um jeito bem feminino e, logicamente, mandei para todos os colegas possíveis.

A risada foi geral quando ele sentou na cadeira. Cuspiu a água salgada na cara da secretária, que estava completamente irritada ao ler o e-mail que recebeu. O diretor o chamou aos berros querendo explicação sobre o que tinha recebido. Quanto à foto, em menos de um minuto um puxa-saco a encaminhou para ele.

Ao descobrir quem tinha sido o autor das brincadeiras de mau gosto, mandou-me imediatamente direto ao RH. Ao chegar lá, descobri que meu nome não estava na lista negra. Para piorar, ele iria reajustar meu salário, já que outros colegas que ganhavam mais foram dispensados. Acabei sendo demitido por justa causa.




(Set/2016) - Mico olimpíco


Olímpiada. Festa única do esporte. Os olhos do mundo se voltam para esse grandioso espetáculo. E como é bacana ter isso em nossa cidade. Gente de todos os continentes pelas ruas do Rio, camisas, olhos, cabelos, tudo isso de todas as cores e jeitos, várias línguas sendo faladas, e a alegria esbanjada diante de uma metrópole que sofre com tantas mazelas, maquiadas – ou diria melhor, escondidas embaixo dos tapetes das zonas mais esquecidas pelos governantes – às pressas, para não estragar tamanho evento, mas isso é um outro papo.

Diante disso, mesmo não tendo comprado – nem ganhado – nenhum ingresso, resolvi chamar a patroa para dar uma volta em algum dos palcos esportivos, para ver a movimentação, ver gente diferente. Ela topou, e como tínhamos que visitar a mãe dela, resolvemos dar uma volta no Engenhão, que fica próximo à residência da sogra.

Lá chegando, por volta de treze horas de um dia ensolarado, decidi que iria caminhar devagar, para poder registrar a circulação de pessoas que entravam e saiam do estádio. Ela preferiu dar uma corrida de leve, para manter a forma. Ela saiu na frente, e eu, lentamente, fui ficando para trás.

Já em frente ao Museu do Trem, quase ao meu lado, percebi uma pessoa pedindo informação a uma outra que estava na portaria:

– Onde fica o Setor Leste, por favor?

Olhei de relance. Era uma mulher. Agradeceu a resposta e continuou a andar praticamente ao meu lado, pois eu estava indo em direção ao seu local desejado. Ela estava com uma saia longa, de tecido suave, que balançava bastante com o vento, um boné, óculos escuros, credencial no peito, tinha baixa estatura, elegante, chamou a atenção, mas continuei em meus passos e averiguando o movimento do público. Entretanto, a pressa da dona voltou a desviar meu foco. Ao olhar com mais exatidão, percebi quem era: ninguém mais, ninguém menos que Maitê Proença. Isso mesmo! Sozinha, disfarçada e linda. Fingi que não a reconheci e mantive meus passos paralelos aos dela. A cada quatro passos, uma olhada de leve na musa. Até o momento, pelo que percebi, só eu a tinha reconhecido em meio ao pequeno alvoroço do vaivém das pessoas.

Uma selfie. Isso! Eu deveria pedir para tirar uma selfie com ela. Este momento não poderia passar em branco. Já pensou que registro maneiro eu teria da Olimpíada? Uma foto com essa deusa da TV. Ah, se eu tivesse com a minha Playboy, cuja capa estampava seu belo corpo, pediria um autógrafo... Mas o que eu estaria fazendo com uma revista masculina na rua numa ocasião dessa? Que delírio! Eu, hein?

O fato é que o portão que ela estava procurando estava logo adiante de nós. Faltava-me coragem para abordá-la e pedir a foto. Até porque ela estava camuflada, logo, não queria ser reconhecida. Qualquer que fosse a minha reação, chamaria a atenção de todos, e isso não seria legal.

De repente, pintou um clarão. Naquele momento, não passava ninguém. Era minha hora, e a coragem que não tinha chegado até a ocasião veio como um raio de sol. Respirei fundo, peguei o celular no bolso da bermuda, olhei para o meu lado esquerdo, dei dois passos em sua direção, enchi o peito pra chamá-la, e... POOOOFFTTTTT!

– Seu safado! Me chamou aqui pra isso? Pra ficar dando mole pra essas gringas horrorosas? Vamos embora agora pra casa, canalha!

Foi o pescoção mais bem-dado que já vi – e senti – na vida! Ela veio no embalo da corrida e acertou minha nuca em cheio. Acho até que foi de mão fechada. Meu celular voou longe, e a bateria não achei mais. Meu boné caiu na calçada do outro lado da rua. Meus óculos, por pouco, não viram lentes de contato. Maitê? Nem olhou para o lado. Sorte a minha.




(Out/2016) - O banco ocupado


Ao entrar no metrô, sonolento ainda, o dia mal estava começando, notei algo de estranho no ar. Muitas pessoas em pé, porém um lugar vago, na janela, ao lado de uma mulher, que se acomodava na parte do banco na beirada, no corredor. Não demorou muito para eu descobrir o motivo de tamanha estranheza.

– Bom dia. A senhora poderia me dar licença para me sentar?

– Sentar-se onde? Não vê que não há lugar? – respondeu-me, sem me olhar.

Olhei novamente para o banco. Estava desocupado. Poderia estar com alguma bolsa ou outro objeto qualquer, mas não. Estava vazio mesmo.

– Gostaria de me sentar nesse lugar vago ao lado da senhora. Se preferir, pode passar para o canto, que eu fico na ponta, sem problemas.

– O moço é cego ou está querendo arrumar problema? – dessa vez, olhou-me com cara de poucos amigos.

A mulher deveria ter no máximo uns 40 anos. Bem vestida. Trajava uma blusa branca, que parecia ser de linho, uma calça social preta, salto alto e uma bolsa sobre as pernas. Percebi que não era uma situação normal. Aquilo até espantou o sono. Pelo menos, serviu de alguma coisa. Alguns passageiros já avistavam o desenrolo, disfarçadamente. Creio que não fui o primeiro a tentar conquistar o assento, ou a dona já era conhecida.

– Não, imagina. Eu só achei que cabia mais um neste banco e, como estou bastante cansado e com uma dor insuportável na perna, achei que não se importaria, mas não a incomodarei mais. Passar bem! – e permaneci de pé, em frente a ela, que olhou para minha perna, talvez para conferir algo relacionado à dor que mencionei, que, por sinal, foi improviso, e depois se virou para o lugar vago e sussurrou poucas palavras, voltando-se a mim em seguida:

– Olha, sendo assim, acho que, apertando, dá para os três. Não somos gordos e, pra ajudar alguém, vale a pena o esforço. Beto também não se incomoda de dividir o banco com mais um – e ela se chegou para o meio do banco, deixando um espaço pequeno em cada lado, o do canto vazio e um pedaço da ponta para que eu me sentasse. Foi o que fiz, depois de analisar a situação com certa curiosidade.

– Muito gentil de sua parte. Obrigado.

– Agradeça ao Beto. Ele é mais generoso que eu, né, amor?

– Obrigado, seu Beto.

– Não precisa chamar de seu Beto! Ele não gosta. Acha que isso o deixa mais velho, vê se pode? Quem diz que esse homem tem quase cinquenta anos?

Dei uma travada, sem saber o que fazer, mas resolvi não contrariar e dei corda no assunto.

– Realmente, não. Vocês são namorados?

– Noivos há um ano. Acredita que ainda não marcamos a data do casamento? Os tempos estão ruins para tudo! Não se pode fazer compromisso sério do jeito que as coisas andam. Ele não consegue emprego há um bom tempo.

– É, não está fácil mesmo! Qual a profissão do Beto?

– Era bombeiro, mas, depois de um acidente que sofreu, resolveu abandonar a carreira. Agora procura por qualquer coisa, mas está difícil. E o senhor, faz o quê?

– Sou fotógrafo. Trabalho para um jornal.

– Ah, que bacana! Deve ser uma profissão bem legal!

– É sim! Preciso ficar atento a tudo e sempre ando com máquina fotográfica. A todo o momento, tem algo novo, inusitado, que sempre me rende umas boas matérias.

– Você está com sua máquina aí?

– Sim! Por vezes, já saí de casa sem documentos, mas ela, nunca esqueci!

– Acredita que não tenho nenhuma fotografia recente com Beto? Sou muito tímida, mas não vou hesitar em pedir: Tira uma foto nossa agora?

– Mas é claro! – respondi com medo de desagradar com o resultado.

– E por sorte de vocês – azar o meu, pensei – estou com uma que revela a foto instantaneamente!

– Oba! Que barato!

Levantei-me do meu terço de banco, apontei a máquina para “ambos” e click!!!

Ao revelar, saiu o que imaginei: somente ela. Mas juro que fiquei com medo de ver mais alguém naquela fotografia, que entreguei logo a ela.

– Muito obrigado! Linda! Ficou muito boa! Você é um bom

profissional!

Ela se voltou e passou a falar com Beto sobre a foto, com um imenso sorriso no rosto. Minha estação chegou, e desci. Um senhor que desembarcou junto comigo me questionou:

– Meu filho, o que tinha naquela foto?

– Muito amor, meu senhor...muito amor. Foi só o que enxerguei.




(Nov/2016) - Em briga de marido e mulher...


Não tinha como não ouvir o papo do casal no ponto de ônibus.

– Faço o que for por você! – disse o rapaz.

– Precisamos fazer mais isso. Ontem foi bom demais! – respondeu a moça.

O ponto não estava cheio, mas, como chovia, todos ficavam perto uns dos outros e, como mencionei, era inevitável não ouvi-los. O casal era jovem, estava de mãos dadas, ambos portavam aliança no dedo anelar da mão esquerda. Havia uma senhora ao meu lado que apresentava uma doçura de prazer no sorriso, ao ouvir o diálogo. Chegou a me olhar como quem diz “como o amor é belo...”.

– Quando chegar em casa, deixa tudo preparado pra mim, ok?

– Sem problemas! Farei assim que chegar!

– Ah, não esqueça de separar as coisas para levarmos no final da semana!

– Sim, já está quase tudo adiantado.

Havia uma moça ao lado de um homem no local. Mesmo não estando com o afeto do casal principal, pareciam ser namorados. Era fácil ler o que ela falava com o olhar para o seu parceiro. Seus olhos diziam algo como “tá vendo como se trata uma mulher? Tá vendo o que é cumplicidade?”. Ele disfarçava e olhava em direção à rua, vigiando o ônibus virar a esquina.

A chuva deu uma apertada, o pessoal começou a se espremer e, com isso, o casal ficou mais colado, e nós mais próximos deles. Ficou fácil de ouvir até os sussurros:

– Seus cabelos estão muito cheirosos!

– Lavei-os com o xampu que você mais gosta! Também usei aquele creme que que você diz deixar minha pele mais macia!

Ao ouvir isso, não puder me conter e resolvi elogiá-los, devido ao carinho trocado por eles.

– Parabéns! Vocês são um exemplo de... – fui interrompido pelo jovem, antes mesmo de falar um terço do que queria.

– Quer fazer o favor de não se meter na discussão de um casal? Em briga de marido em mulher, ninguém mete a colher; nunca ouviu falar nisso não, imbecil?

Fiz sinal para o táxi que passava na hora e embarquei no mesmo segundo. Vai entender o que se passa na cabeça de cada um... Só tem doido neste mundo!




(Dez/2016) - Gertrudes


Já tive muitas namoradas. De todas as profissões. Todas belas. Melhor dizendo, quase todas. A Gertrudes não era, mas foi a que me marcou para sempre, sem dúvida. Lembro-me bem de Ana Clara, bailarina do Teatro Municipal de Niterói. Uma doçura sem tamanho. Suavidade única no andar e no modo de agir com as pessoas. Pena ter sido por pouco tempo. Suas viagens a trabalho nos distanciaram. Penélope. Ah, Penélope... Uma dentista de primeira! Como valia a pena sofrer naquela maquininha infernal! Pedia pra trocar de obturação, mesmo sem precisar, só pra recostar naquela cadeira e sentir seu busto sobre meus ombros. Que flúor... Que flúor! As coisas não foram tão sutis com Bárbara, uma professora de jiu-jítsu. Um certo desentendimento bobo me custou uma costela quebrada, mas ela possuía seu valor. Usava suas técnicas de solo, não só no tatame, mas também na cama. Mas não cabem detalhes aqui. Amélia não era a mesma de Ataulfo Alves e o do saudoso Mário Lago, mas também era uma mulher de verdade. Uma dona de casa exemplar. Seu apartamento era sempre muito bem cuidado, limpo, tudo arrumadinho, cheiroso em demasia. Certa vez, deixei a toalha de banho em cima da pia. Custou-me o fim do relacionamento. Fazendo mais uma analogia, Renata não era ingrata como a do Latino, mas tinha uma lábia como poucas. Nunca havia me deparado com uma vendedora igual àquela mulher. Em pouco tempo, alguns gestos e curtas frases, vi-a vendendo um chevette a um senhor pelo preço de quase um carro zero! Eu tinha medo que ela pudesse me falir, tirar-me o pouco que tenho. Caí fora. Berenice me usou. Chegou ao meu lado no balcão do bar, numa sexta-feira, início de noite, com um copo de uísque na mão, enquanto eu me refrescava com meu chope. Voz firme e ao mesmo tempo sutil, muito bem arrumada, terninho, joias, cabelo bem cuidado, um luxo de mulher. Disse que era estagiária em um escritório de contabilidade no Méier. Pelos seus traços e jeitos, não colou muito, mas isso pouco me importou naquele episódio. Depois de algumas semanas, cheguei, atrasado, ao mesmo bar em que nos conhecemos, pois ali era nosso ponto de encontro, e me deparei com dois caras enormes levando-a pelos braços para fora do ambiente, sem que chamassem muito a atenção. Passaram por mim enquanto eu entrava, cruzamos um súbito olhar, ela nada falou, e eles saíram. Disfarçadamente, olhei para fora e os três entraram em carro cuja placa estampava o brasão da Assembleia Legislativa do Rio. Resolvi não entrar mais no bar. Fui embora. Aliás, nunca mais pisei lá. Semana depois, vi uma nota no jornal que falava do escândalo de um deputado que agrediu a esposa por flagrá-la em adultério na sua própria casa. Escapei por pouco dessa. Mas, definitivamente, quem marcou a minha vida pra eternidade foi Gertrudes. Ela trabalhava no Edifício Central, na Avenida Rio Branco, no Centro do Rio. A última vez que nos vimos foi quando saí desesperado, depois de ter pulado a janela de sua casa, e corrido incansavelmente por mais de três quilômetros sem parar. Ela marcou um jantar para comemorarmos uma semana de namoro. Disse que fazia uma massa como ninguém, de invejar qualquer italiano, e eu topei experimentar. Logo assim que cheguei, serviu-me um vinho tinto seco de tirar o chapéu, esplêndido. Porém, não me recordo de ter acabado de beber nem a segunda taça. Apaguei antes mesmo de ver a tal comida pronta. No dia seguinte, acordei em sua cama, com a manga esquerda da camisa ensanguentada. A cabeça doía demais. Fiz uma força fenomenal para manter os olhos abertos. Meus músculos não obedeciam à minha mente. Talvez seria porque ela não conseguia ordenar nada, estava vagarosamente descontrolada. Caí no famoso golpe “Boa noite, Cinderela”. Quando finalmente consegui me levantar, olhei meu antebraço, atônito, virei para o lado da cama e lá estava ela sentada e, com um sorriso macabro, disse:

– Isso, amor, é para nunca mais se esquecer de mim!

Com letras garrafais, a psicopata tatuou seu nome em mim. Ela era tatuadora. De certa forma, tinha razão. Nunca mais a esqueci. Essa, realmente, marcou a minha vida para sempre.




(Jan-Fev/2017) - Metralhadora de “por quê?”


Eu tinha medo de essa fase chegar, mas sei que seria inevitável. Sempre ouvi amigos e parentes dizerem que seria um momento de nos quebrar as pernas, porém não sabia que, em certas ocasiões, seriam as duas de uma só vez.

Estávamos eu e Abelardinho, meu filho, na fila de uma loja, para pagar as roupas que compramos para ele, quando, de repente, ele me soltou a seguinte pergunta:

– Papai, por que a calcinha que está na mão desta moça é tão pequena, diferente das que a mamãe usa?

A tal moça estava à nossa frente, de costas para nós, e assim permaneceu. Eu fiquei com a cara mais vermelha que a própria calcinha que a mulher segurava, e que, realmente, tinha muito pouco pano. Aliás, acho que era feita de fitas. Uma senhora que estava atrás de mim e escutou o questionamento do garoto, balbuciou para uma outra que a acompanhava:

– Esse menino deve ter uns seis anos, mas é muito esperto! Realmente, aquilo não é coisa que se vista. Uma falta de vergonha dessas mulheres! Na minha época, não tinha nada disso!

Eu tentei disfarçar, puxando outros assuntos, tentando ganhar tempo, enquanto a fila andava. Ele estava inquieto. Já tinha me feito uma série de perguntas, uma metralhadora de “por quê?”, porém aquela foi a pior do dia.

Faltava apenas uma pessoa a ser atendida na frente da dona da lingerie contestada. Eu enrolava o moleque, ou pelo menos tentava, de todos os modos, fazendo promessas de passeios, de brinquedos, dando um jeito de me livrar de um novo por quê.

– Próximo! – gritou o rapaz do caixa. E, sem olhar para trás, ela foi. Logo em seguida, a menina do caixa ao lado fez a mesma menção.

– Caixa 3 livre! – e lá fomos nós; para o meu azar, ficamos lado a lado com a moça. De repente, Abelardinho cutuca a perna da mulher e manda a derradeira:

– Oi, tia Patrícia! Por que a senhora usa calcinha tão pequena, diferente das que a mamãe usa?

Era a professora de inglês dele. Ela pegou a sacola de compras, deu um senhor tabefe na minha cara, abaixou-se e disse, olhando para o meu filho:

– Uso porque elas cabem em mim, mas não na bunda gorda da sua mãe! – e foi embora.

– Papai, por que a mamãe tem a bunda gorda?




(Mai/2016) - “Na barraca verde tem”


– Bom dia. Por favor, uma cerveja.

– Bom dia. Infelizmente, não está muito gelada. É o tipo de bebida que, se não tiver estupidamente gelada, ainda mais aqui na praia, não rola, né?

– Verdade. A senhora tem toda razão. Então, uma água de coco.

– Uma moça acabou de pedir uma e saiu reclamando que está horrível! Não está nada doce!

– Caramba! Realmente não presta, se não estiver doce.

– Refrigerantes, quais a senhora tem?

– Quase todos, mas tenho visto cada reportagem horrível sobre os males que eles nos fazem! Assustador demais! Eu mesma parei de bebê-los, faz quase um ano!

– É, sempre falam isso, mas a gente acaba bebendo. De qualquer forma, é bom evitá-los, sim. Nesse caso, me vê algum energético.

– O senhor não acha que o efeito disso é totalmente psicológico? Se estiver muito cansado e beber um litro deles, de nada adianta! Pelo menos comigo e com todas as pessoas que conheço!

– Ok, tudo bem. Guaraná natural?

– De natural não tem nada, né?

– Suco de fruta? Nem que seja de caixinha...

– Ainda não nos entregaram as frutas hoje aqui no quiosque. Aliás, não só neste como em todos aqui da orla. O pessoal já reclamou mais cedo. Avisei ao meu patrão, que ficou de ligar para o fornecedor. Suco de caixinha? Já viu no rótulo a quantidade de açúcar que contém cada embalagem? Isso faz um mal terrível!

– Pelo menos, a senhora tem água mineral???

– Até tenho, mas não confio nessa marca. O gosto é ruim! Parece água da bica! Eles devem encher de qualquer torneira e embalar! Se levar a um laboratório para analisarem, devem achar até coliformes fecais! Mas, se o senhor quiser, pode comprar naquela barraca verde, ali na areia.

A marca que ele vende é de extrema confiança, assim como o vendedor: meu filho! E, a propósito, vende todos os produtos que solicitou anteriormente, porém de alta qualidade.




(Abr/2016) - De olho na folhinha


Há implicâncias que são específicas de algumas mulheres; outras, podemos generalizar. E, todos concordarão comigo, uma delas é a lembrança, ou melhor, a falta dela em datas comemorativas esquecidas por nós, homens. Isso elas guardam como nenhum ser vivo consegue. Fato. Não sei se há comprovação científica para a causa, mas acho que nem precisa. Sofro um bocado com isso. Já ocorreu-me esquecer meu próprio aniversário. Uma data que jamais podemos olvidar: o aniversário de nossas mulheres. Anoto em tudo que é lugar, para evitar complicações para o meu lado. Pelo menos, pelo esquecimento, desse nunca apanhei. Ainda.

Faço sempre uma varredura na folhinha (minha mãe sempre chamou calendário dessa forma!), que fica pendurada na parede da cozinha, todo dia primeiro de cada mês. Março. Dia 8 é o Dia Internacional da Mulher. Acha mesmo que eu iria vacilar justo nesse? Não sou tão bobo a esse ponto. Agendei o celular para despertar nessa data, logo cedo. Acordaria antes dela, compraria umas flores e ganharia meu dia.

Na véspera, ao acordar:

– Bom dia, amor!

– Bom dia é o caramba! – Respondeu-me ela, com sete pedras em cada mão!

– O que houve? Ronquei essa noite? Falei alguma coisa enquanto dormia?

– Você sabe que dia é hoje?

Parei e pensei bem, antes de responder, para não falar besteira:

– Dia 7?

– Não responda à minha pergunta com outra! Sabe, ou não, que dia é hoje?

– Sim, amor. Dia 7. Por quê?

– Não está se esquecendo de nada?

Pronto! Deu um vazio por dentro, quando ouvi isso. Ferrou! E agora? Pensei, pensei, pensei e... nada.

– Desculpe-me, mas não sei.

– Hoje faz um ano que Arlindinho nasceu!

– Desculpe-me mais uma vez, mas quem é Arlindinho, amor?

– Filho da minha melhor professora do primário! Não lembra que comentei assim que ele nasceu? Encontrei-a no metrô, na estação de Engenho da Rainha, naquele dia em que fui buscar a encomenda de cupcakes que a Renatinha faz maravilhosamente bem!

– Renatinha?

– Sim! Não lembra daquele casal que conhecemos na praia, em 2005, num dia em que tivemos que sair correndo por causa da chuva?

– Não. Sinceramente, não.

– Absurdo! Seu insensível! Não ouse falar comigo nos próximos três dias! – Saiu, batendo a porta do quarto, e, logo em seguida, foi trabalhar.

No dia seguinte, às 5h50 da manhã...

– Não é possível que vai esquecer de me parabenizar no Dia Internacional da Mulher! Você está cada vez pior!

– Mas eu estava dormindo! Você acabou de me acordar, aos berros... E, além do mais, proibiu-me de falar com você nos próximos três dias!

– Entretanto, seu indolente, hoje é um dia especial! A partir de hoje à noite, pode levar seu travesseiro e lençol para o sofá! – disse, batendo a porta do quarto mais uma vez.

Só me resta estudar mais o calendário... ou folhinha, tanto faz.




(Mar/2016) - Balé no convés


Carnaval, época de diversão. Período no qual as pessoas se divertem de todos os jeitos, os mais variados possíveis. Pode chover, fazer sol, roncar trovoadas, não importa, o povo é animado para a coisa. Bebe-se além do normal. Aliás, nada é normal, muito menos a bebedeira. Os cachorros lambedores de caras se dão bem nas ruas. É muita bebida que se consome. E haja grana para se gastar nesses quatro dias. Há quem comece a economizar desde agosto para, quando fevereiro chegar, torrar todos os níqueis dos porquinhos de barro. E quando chega a quarta-feira de cinzas, só ressaca. Dizem alguns que o ano só começa após o carnaval, e, em muitos aspectos, acredito nisso.

Enquadro-me nesses grupos de foliões que mencionei anteriormente. Ou melhor, enquadrava-me. A tal crise chegou e derrubou minhas alegorias e adereços, desafinou completamente meu samba, desarmonizou minha harmonia, desconjuntou meu conjunto, mas decidi que meu enredo seria outro. Não tiraram pontos da minha bateria e não iriam me fazer dançar como um mestre-sala: resolvi ganhar, em vez de perder dinheiro - na verdade, não há como perder o que não se tem. Procurei uma antiga fantasia de pirata, da minha época de folião gastador, peguei o isopor, que no tempo das vacas gordas levava os “biricuticos” à praia, e determinei que venderia latas de cervejas nos blocos de rua. O problema é que, para a maioria deles, só os vendedores credenciados estariam liberados, mas tinha que dar meu jeito. Precisava arrumar um troco e, ao mesmo tempo, me divertir, ou pelo menos tentar. E lá fui eu para o centro da cidade, o foco dos blocos, reduto dos “porras-loucas”, fervo dos que bebem sem parar.

Meio sem jeito para a coisa, já no meio da aglomeração, encostei num poste e ajeitei o isopor entre as pernas para que não fosse carregado pela multidão. E como começar a vender? Meio tímido, comecei a gritar: “Duas por dez! Olha a gelada! Duas por dez!”. Com aquele barulho ensurdecedor, ninguém me ouviu, a não ser a senhora que estava com os netos ao meu lado, que me xingou e saiu de perto na mesma hora. Usar uma placa talvez seria a solução, mas chamaria a atenção dos fiscais. Não seria uma boa. Sem falar no calor infernal que fazia naquela tarde de sábado. Não resisti. O calor estava maior do que tudo. Peguei uma lata, abri, e pude comprovar que realmente estava geladinha, bem geladinha. Aquilo me deu mais um ânimo, além de coragem, e voltei a gritar com mais energia: “Duas por dez, pra acabar, pra acabar!”. Mal sabem que não tinha vendido nenhuma. Mas parece que deu certo:

- Oi, pirata! Deixe-me bailar no tombadilho do seu corsário? - disse uma linda bailarina que surgiu repentinamente ao meu lado.

Fiquei sem ação. Ela sorriu, pegou a lata que estava em minha mão e bebeu o último gole que nela restava, com uma doçura no olhar que me deixou estático.

- Poxa, acabou! Que pena... – devolveu-me a lata vazia, passando a maciez da sua mão sobre a minha. Aquilo me despertou do congelamento em que ficara quando ela chegou. Segurei-a pelo braço com uma das mãos, enquanto a outra abria o isopor para pegar outra lata:

- Espere! O pirata não vai liberar a bela bailarina assim tão facilmente! Primeiro terá que mostrar que realmente sabe bailar, e o convés do meu coração é todo seu!

Virei o tapa-olho para trás, e daí rolou beijo, plié, jeté, giros nas pontas dos pés, prancha com tubarões e outras coisas mais. Abrimos mais outra lata, e mais outra, mais outra, e outra, e assim foi a tarde toda. Parecíamos o casal mais animado do bloco. Não vendi uma lata sequer, porém, me diverti como há tempos não acontecia. Azar nas vendas, sorte no amor.

E olha que era apenas o primeiro dia de carnaval...




(Jan-Fev/2016) - Fim de namoro


Na minha infância, eu só largava uma boneca de lado quando ganhava uma nova. Era sempre assim. Mesmo se não tivesse muito tempo, a antiga ia para a caixa de brinquedos que ficava no canto do quarto, e a nova ganhava seu lar, sobre minha cama. Eu nunca conseguia ficar com duas ao mesmo tempo. Era regra: boneca nova, cama; velha – mesmo se tivesse ganhado há pouco tempo –, caixa do canto. Certa vez, ganhei duas ao mesmo tempo; isso nunca tinha acontecido antes. Foi no aniversário de sete anos, lembro-me bem. Fiquei dois dias para eleger a que dormiria comigo, e, por outro lado, o que faria com a outra, pois também era novata no recinto. Depois de muito pensar, fiquei com as duas, e nunca mais ocorreu tal substituição. A partir daquele dia, todas tinham seu espaço no quarto, e até mais de uma poderia ficar na cama. Inclusive, algumas foram libertadas da prisão da caixa do canto; outras permaneceram e foram doadas para novas donas.

Comecei com esse breve trecho de quando era criança para contar uma situação que me ocorreu no réveillon. Combinei passar a virada do ano com meu namorado, na praia da Barra. Assistiríamos aos fogos e depois voltaríamos para minha casa. Algumas tias e primas da minha mãe combinaram ficar juntas. Como não se viam há muito tempo, aproveitariam para colocar o papo em dia. Elas são de Penedo, local que tenho vontade de conhecer, mas são bastante chatas, e isso sempre me impediu.

Chato também estava o meu namoro. Eu não conseguia mais aguentar. Ele era gente boa, mas não combinava comigo, e eu tinha a certeza de que estava perdendo o meu tempo, e que, mais cedo ou mais tarde, tudo iria por água abaixo. Tentei, por três vezes, terminar tudo, mas algo sempre impedia, em cima da hora. Na última vez, era uma tarde de domingo, só estávamos nós dois em casa, o que achei o cenário perfeito para tal desfecho, quando, de repente, meu pai abre a porta e o chama para assistir ao jogo do Fluminense que começaria dentro de dez minutos na televisão. Ambos são tricolores doentes. Não rolou. E foi rolando, rolando, rolando até que chegou o dia 31. Não dava para agir como fazia com as bonecas. Arrumar um novo namorado para esquecer o atual não seria justo, nem com ele nem comigo.

Ele chegou por volta das 21h30, 21h40. Blazer branco, blusa amarela e uma calça verde. Nem tentei olhar para os sapatos. Essa é uma das coisas que me estressava com ele: o modo como se vestia. Nem reclamei, mas ele mesmo começou a se justificar:

– Branco, para começar o ano com paz; amarelo, para ganhar muito dinheiro; verde, para...

Antes que ele terminasse, avisei que não estava arrumada ainda e iria tomar um banho rápido para sairmos.

E, assim, iniciava meu plano para terminar o namoro. Propositalmente, demorei um pouco no banho. Enquanto isso, percebi que minhas tias, as malas, não o deixavam falar. O assunto deveria estar ótimo, para elas, é claro. Zunzunzum às alturas, gargalhadas ao extremo, e nada da voz dele. Ao sair do banheiro, dei uma espiada e vi que o meu futuro ex-namorado estava sendo sufocado pelas tagarelas. Ótimo. Para não deixá-lo abandonado, não pelas linguarudas, mas por mim, fui até a sala e disse que me aprontaria em quinze minutos. O pobre coitado só conseguiu me responder com os olhos. Quando entrei no quarto, já eram quase 23h. Vesti-me em dez minutos. Calcinha, sutiã, um vestido branco, uma sandalinha e pronto. De fininho, saí do quarto rumo à cozinha. Passei pelo corredor, sem que o furdunço da sala me visse. Expliquei rapidamente a minha mãe o que eu faria; ela, por sua vez, não reclamou. Desejou-me feliz ano novo, e fugi pela porta dos fundos. Olhei pela janela, ao passar pelo corredor da casa. Minhas tias estavam enchendo o ex de comida. Já o considerava assim, ex.

A festa na cobertura da minha vizinha estava muito boa! Muita gente animada, comida, bebida, boa música. Isso sim é jeito bom de começar o ano. Ele, tadinho, rompeu comendo mais do que devia, passou mal, foi socorrido pelas aporrinhadoras de Penedo e só conseguiu sair lá de casa às 4h. Daquele dia para cá, nunca mais me ligou. No fundo, fiquei com peninha dele. Não pelo fim do namoro, mas por começar o ano com o pé esquerdo. Aturar aquelas importunas não é nada fácil.




(Dez/2015) - A caminho da academia


Sei que não sou mais nenhuma garotinha e, por isso, preciso me cuidar. Já me incentivaram a fazer natação, mas perto de casa não há um clube com piscina. Além do mais, imagina entrar naquela água fria no inverno? Sei que existem piscinas com água morna, mas, mesmo assim, não seria uma boa opção. Certa vez, um colega de trabalho me levou a uma roda de capoeira de que ele participa. É bem bacana, porém não tenho nem coordenação motora nem aquele gingado todo. Tô fora! Outro dia, encontrei um amigo de infância, que, durante o nosso papo, disse que começou a fazer aulas de jiu-jítsu numa academia perto de onde moramos. Luta não é pra mim. Não tenho forças nem para matar um mosquito, que dirá lutar. No meio do assunto, ele falou mais sobre a academia. No local, além das lutas, havia musculação e danças, o que já me atraem um pouco mais. Uma noite, resolvi ir com ele, que me mostrou todo o ambiente. Realmente, a dança é mais a minha cara. Fiz a inscrição na Aeróbica e já comecei a frequentar a aula no dia seguinte.

Íamos às segundas, quartas e sextas. Local de encontro: meu portão, às 18h30. Atualizávamos o papo durante os sete, oito minutos de caminhada até lá e, cada um para o seu lado, eu ia dançar; e ele, lutar. Na saída, às 20h, voltávamos juntos para os nossos respectivos lares. Isso rolou por três semanas e meia, até que, em uma sexta-feira, ele me ligou:

– Jéssica, hoje não poderei ir à academia. Haverá uma confraternização do pessoal do trabalho e sairei com eles.

Até aí, tudo bem. Entretanto, lembrei-me de que há algumas barreiras, digamos assim, para uma mulher andar sozinha nessas ruas durante a noite, sobretudo com trajes de academia: blusa e calça legging marcando partes avantajadas do corpo. Tá certo que sempre amarro uma camisa de manga comprida na cintura cobrindo a minha “traseira”, mas passar pelo bar da esquina sozinha, ainda mais num dia em que fica bastante cheio de homens, não seria legal. Todavia, resolvi arriscar.

Dezoito e trinta. Fiz o sinal da cruz e parti em direção à academia. O coração começou a bater mais forte a cada passo dado, a cada metro a menos da esquina, mas fui firme. De longe, vi poucas mesas ocupadas. Alguns homens em pé. Uma placa no meio da calçada apresentava os dizeres “Happy hour com dose dupla de chopp”. Engoli seco, acelerei o passo e, com olhar fixo à frente, virei a esquina, sem reduzir, sem derrapar. Pronto. Fui forte. “Não houve problemas, Jéssica”, falei comigo mesma, bem mais aliviada. Se alguém me viu, não fez nenhuma gracinha. Entrei e fui direto tirar a tensão do corpo através da dança.

A aeróbica foi pesada nessa noite. A professora não nos aliviou. Parecia que estava querendo castigar alguém e descarregou em nós, alunas. Mas, de certa forma, foi bom, manteve-me mais ativa. Hora de ir embora. Doida por um banho morno em casa, jantar, colocar o pijaminha, e cama. Programa de sexta-feira de solteira. Fazer o quê, né?

Saí da academia, feito um foguete, e, depois de andar um bocado, me conscientizei de que iria passar de novo em frente ao bar, que, certamente, estaria mais cheio a esta hora. Mas segui em frente. Já estava avistando o movimento, quando percebi que deixei a camisa de manga comprida, que amarro na cintura, no local de dança. Nunca tinha esquecido. A primeira vez tinha que ser logo esta noite? E lá fui eu fazer o sinal da cruz novamente. Tinha o triplo, quiçá o quádruplo, de homens que antes. Gelei. O barulho era mais intenso. O falatório se misturava com a música alta. Levantei a cabeça, pisei firme e segui. Sem medo. Nada de errado iria me acontecer. Concentrei-me. Dobrei a esquina. Passos largos, nariz empinado, olhar fixo, barriga pra dentro e peito pra fora. Quando fui relaxando e voltando ao normal, percebi que passei ilesa. Nem um “psiu!”. Nem um “boa noite, delícia!”. Nem um “Aceita um chope?”. Nem um “Que princesa!”.

Que droga! Semana que vem, colocarei um shortinho.





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