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Flávio Rubens

SALUSTIANA - Capítulo VI


Salustiana anadegava ancas na lavagem. Era de se ver o barril de carne indo e vindo, robustamente, no esfregar de peças molhadas. Um massacre de mãos fortes em que os mais sofisticados avanços da tecnologia moderna não tinham vez. Era a força dos dedos nas minúcias dos entrepontos e um artifício de raspagem à face do tanque estriado. Benedita, agora e sempre, orgulhava-se da brancura do colarinho sem o menor risco de puir. O punho, às abotoaduras, marcava a preferências dos antigos fregueses, onde as dobras permaneciam intactas, brancas e livres na rastreação dos gestos de uso. Técnica invejável que a fazia a melhor passadeira do morro da Formiga.

O esmero, às linhas dos botões, o debruar dos colarinhos, a gola admiravelmente alisada, tornaram-na, à vaidade social, a escolhida pelos mais exigentes em vestuário. Um instinto mecânico dominava as duas redondas faveladas, que, do chão pastoso, faziam ribalta às atividades profissionais. Baldes, sabão português.

– Tem que ser português! Sabão português.

Espumas vorazes emolduravam o cenário e consumiam olhares curiosos dos que transitavam, diariamente, naquele local.

Trinta ou mais quilos de roupas, mais tarde, seguiriam o destino das madamas, onde maridos elegantes desfilariam, sobranceiros, o resultado do trabalho das duas lavadeiras. Varais de coisa limpa ladeavam os barracos, em contraste com a realidade de ambas, e decoravam a paisagem, paradoxal, da miséria ao derredor. Realidade. Ah! A realidade. Conselhos e mais conselhos. Promessas e mais promessas. Sonhos e mais sonhos. Que pena! O brasileiro é um padre oculto.

– Oh! Xente. Pega da tina. Joga água ali.

– Apanha o sabão em pó! Apanha o balde!

– Graças a Deus. Tudo tão perto e quase ninguém vê.

Frases soltas que harmonizam, às pautas, o imaginário ritmo frenético e palestrador de Salustiana e Benedita.

O dia avançava em seu caminho e Anáscio surgiu, à porta da birosca, remelento e espreguiçando noite de ressaca profunda. Aprumava calças maldormidas e coçava a cabeça onde possíveis – é bem possível – piolhos trafegavam seborréias.

Das chinelas, perguntou aos gestos ontem:

– Souberam?

– O que, Anáscio?

– A batida policial.

– Não! (Sempre não) dormi que nem tábua.

– Prenderam o Tatuagem e seu bando.

– Sei lá.

– Quantos?

– Quantos todos.

Benedita interrompeu arrepiada.

– São uns taquaras. Acabam onde querem. E não sabem. Na cadeia. Não demoram um dia, sequer, com o fruto do ganho. E...ganham Aidisis!!!

Fez pose, Benedita fez pose.

– Aliás, o analfabeto metido a macho só dá nisso!

Nas favelas, as frases pipocam lá e cá. Anáscio soprou dentadas às críticas matinais. Salustiana passava, agora, em ritmo mais acelerado, mãos pelas roupas.

– Esses papos são fedorentos. Não levam a nada.

Uma azáfama de tarefas com Anáscio colocando a trouxa sobre a cabeça da lavadeira. Benedita, de mãos próprias, fez a mesma coisa. Seguiram. Morro abaixo. Riso franco. Coxas fortes. Bunda alta. Anáscio, não. Ficou pela birosca.

Baixou bestunto. Franziu testa. Esfregou mãos.

– Não estou gostando! Benedita não se trata e suas mãos estão inchando. Cada vez mais. Parecem tetas de vacas.

– Tetas de vacas?

– O “ubi”. Sei lá. Aquela coisa parecida com luva perto da xoxota.

– É! Estão cheias que nem mulher grávida.

– E, o que é?

– Dizem, lá, que é alergia ao sabão em pó. Recomendam sabão de coco.

– Por que não usa?

– O em pó sai mais barato e rende mais.

Um freguês madrugador e mais Anáscio conversavam, na birosca, ao tom de boa pinga. Uma conversa interessada na saúde de Benedita. A passadeira.

Com sol de outra têmpera surge, à porta, Mineirão. Cara limpa, corpo lavado e roupa dando inveja. Achega-se aos dois, no balcão, com vontade de saber. Saber notícias. As notícias são a vida das favelas. Nunca dormira tanto. De virar costela fêmur. Razão do banho caprichado na torneira da vizinha. Bica d'água. Sunga verde. Amanhecera de pele rota enfiada aos travesseiros de retalhos costurados por Salustiana. Os pobres se defendem. Foi falando.

– Que diabo de caras!

– Não brinque com assuntos sérios.

– E que seriedade há?

– Benedita.

Mineirão saiu do pé. Num arranque fez-se todo na birosca.

  • Benedita? Mas, que seriedade pode haver em Benedita?
  • Ué, disse o freguês madrugador. Não viu as mãos dela?

– Não, respondeu curioso o mestre-de-obras, Mineirão.

– Tão grávidas.

Mineirão caiu na gargalhada.

– Que machão!!!

– Não brinca, Mineirão. As mãos dela estão inchadas.

Um pequeno silêncio apossou-se dos três. Silêncio medido aos olhos parados. Até que mãos deliberassem.

Mineirão gesticulou e se foi,

– Vem cá, Mineirão!

O homem voltou. Resoluto de recado.

– É isso mesmo, meu amigo. Tá com as mãos inchadas.

– Isso passa.

– Passa não. É alergia ao sabão em pó e requer cuidados.

– Por que não troca de sabão?

– Teimosia. Nega burra.

Mineirão pegou das coisas. Bem zangado. Irritado. Desceu o morro. Deu um berro.

– Vou passar, nela, um sabão!!!

O freguês madrugador tomou de um trago. Escorregando pela garganta. Até chorou.

– Puta merda! Parece arame farpado.

O dia foi assim. Preocupante aos amigos de Benedita. Mineirão trabalhou de mau humor mas não fez lambanças e o freguês madrugador esticou o dia todo na cachaça – a pretexto – e Anáscio se distraiu com outros pretextadores.

Na cidade, nada de novo. A rotina nauseal vinda dos contrastes. O pão subiu. Tiroteio no morro de São Carlos, embora o santo. As empregadas domésticas com muito mais direitos que deveres. Arrocho salarial e um sábia lei aumentando os proventos dos representantes do povo, legitimamente eleitos pelo voto direto. Diretíssimo. Quem virou “cobra-de-língua” foi o Ministro da Fazenda, que ameaçou renunciar. Emissão de títulos de dívida pública. O Tribunal de Contas descobriu quatro mil e quinhentas nomeações irregulares.

Uma tarde bonita. De brilhar maravilhoso. Os últimos raios de um sol travesso e inquisidor cobriam o horizonte com ouro despedido e sem forças para voltar. Nuvens tomavam cores esparsas e os motoristas levantavam mãos de reivindicações. Do taxímetro. Da grana. Da pressa. Da praça.

Aos poucos, uma luz invejosa dava graças apontando a certeza de uma noite acobertadora e misteriosa. Um cinza se apossou das almas cinsmarentas e a favela do morro da Formiga foi pinicando lâmpadas pelas vielas e por seus becos ameaçadores. Lá embaixo, na cidade, um tremelicar de oferendas espargia coloridos de cartazes sensuais, outros mais, sexuais mesmo à noite boêmia e aos literatos embutidos pelas bibliotecas onde liam vida – sempre faias – aos encontros de páginas viscerais. Nunca apagadas. Noite a dentro, Salustiana e Benedita regressavam. Já com dores. A primeira, nas ancas resolutas. A segunda, às mãos inchadas. Mineirão entrou barraco e passou a carraspana prometida em Benedita. Olhos se fecharam ao luar divagante e anfitrião de momentos mais saudáveis. Anáscio admirou a “dura” dura de Mineirão.

– Assim é que se diz.

– E digo mais.

– Se for preciso. É lógico!

O freguês madrugador talvez emendasse novos pretextos pelos fundos da birosca na desculpa do notável procedimento de Mineirão nas exigidas circunstâncias. Benedita quis um trago que Anáscio não deu. Salustiana deitou bunda e Mineirão se fez, de novo, aos travesseiros. Fora um dia de grandes decisões. As janelas se fecharam à noite imensa e a favela do morro da Formiga disse adeus ao dia inteiro. Sem saber que o freguês pretextador aborcara ao fundo mesmo, com cara de porrador.

Ligar fatos é fazer vida. Coisa tola de almanaque. Dá enredo.

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