SALUSTIANA - Capítulo
VI
Salustiana anadegava
ancas na lavagem. Era de se ver o barril de carne indo e vindo, robustamente,
no esfregar de peças molhadas. Um massacre de mãos fortes em que os
mais sofisticados avanços da tecnologia moderna não tinham vez. Era
a força dos dedos nas minúcias dos entrepontos e um artifício de
raspagem à face do tanque estriado. Benedita, agora e sempre, orgulhava-se
da brancura do colarinho sem o menor risco de puir. O punho, às abotoaduras,
marcava a preferências dos antigos fregueses, onde as dobras permaneciam
intactas, brancas e livres na rastreação dos gestos de uso. Técnica
invejável que a fazia a melhor passadeira do morro da Formiga.
O esmero, às linhas
dos botões, o debruar dos colarinhos, a gola admiravelmente alisada,
tornaram-na, à vaidade social, a escolhida pelos mais exigentes em
vestuário. Um instinto mecânico dominava as duas redondas faveladas,
que, do chão pastoso, faziam ribalta às atividades profissionais.
Baldes, sabão português.
– Tem que ser português! Sabão português.
Espumas vorazes emolduravam
o cenário e consumiam olhares curiosos dos que transitavam, diariamente,
naquele local.
Trinta ou mais quilos
de roupas, mais tarde, seguiriam o destino das madamas, onde maridos
elegantes desfilariam, sobranceiros, o resultado do trabalho das duas
lavadeiras. Varais de coisa limpa ladeavam os barracos, em contraste
com a realidade de ambas, e decoravam a paisagem, paradoxal, da miséria
ao derredor. Realidade. Ah! A realidade. Conselhos e mais conselhos.
Promessas e mais promessas. Sonhos e mais sonhos. Que pena! O brasileiro
é um padre oculto.
– Oh! Xente. Pega da tina. Joga água ali.
– Apanha o sabão em pó! Apanha o balde!
– Graças a Deus. Tudo tão perto e quase ninguém vê.
Frases soltas que
harmonizam, às pautas, o imaginário ritmo frenético e palestrador
de Salustiana e Benedita.
O dia avançava em
seu caminho e Anáscio surgiu, à porta da birosca, remelento e espreguiçando
noite de ressaca profunda. Aprumava calças maldormidas e coçava a
cabeça onde possíveis – é bem possível – piolhos trafegavam
seborréias.
Das chinelas, perguntou
aos gestos ontem:
– Souberam?
– O que, Anáscio?
– A batida policial.
– Não! (Sempre não) dormi que nem tábua.
– Prenderam o Tatuagem e seu bando.
–
Sei lá.
– Quantos?
– Quantos todos.
Benedita interrompeu
arrepiada.
– São uns taquaras. Acabam onde querem. E não sabem. Na cadeia.
Não demoram um dia, sequer, com o fruto do ganho. E...ganham Aidisis!!!
Fez pose, Benedita
fez pose.
– Aliás, o analfabeto metido a macho só dá nisso!
Nas favelas, as frases
pipocam lá e cá. Anáscio soprou dentadas às críticas matinais.
Salustiana passava, agora, em ritmo mais acelerado, mãos pelas roupas.
– Esses papos são fedorentos. Não levam a nada.
Uma azáfama de tarefas
com Anáscio colocando a trouxa sobre a cabeça da lavadeira. Benedita,
de mãos próprias, fez a mesma coisa. Seguiram. Morro abaixo. Riso
franco. Coxas fortes. Bunda alta. Anáscio, não. Ficou pela birosca.
Baixou bestunto. Franziu
testa. Esfregou mãos.
– Não estou gostando! Benedita não se trata e suas mãos estão
inchando. Cada vez mais. Parecem tetas de vacas.
– Tetas de vacas?
– O “ubi”. Sei lá. Aquela coisa parecida com luva perto da xoxota.
– É! Estão cheias que nem mulher grávida.
– E, o que é?
– Dizem, lá, que é alergia ao sabão em pó. Recomendam sabão de
coco.
– Por que não usa?
– O em pó sai mais barato e rende mais.
Um freguês madrugador
e mais Anáscio conversavam, na birosca, ao tom de boa pinga. Uma conversa
interessada na saúde de Benedita. A passadeira.
Com sol de outra têmpera
surge, à porta, Mineirão. Cara limpa, corpo lavado e roupa dando inveja.
Achega-se aos dois, no balcão, com vontade de saber. Saber notícias.
As notícias são a vida das favelas. Nunca dormira tanto. De virar
costela fêmur. Razão do banho caprichado na torneira da vizinha. Bica
d'água. Sunga verde. Amanhecera de pele rota enfiada aos travesseiros
de retalhos costurados por Salustiana. Os pobres se defendem. Foi falando.
–
Que diabo de caras!
– Não brinque com assuntos sérios.
– E que seriedade há?
– Benedita.
Mineirão saiu do
pé. Num arranque fez-se todo na birosca.
- Benedita?
Mas, que seriedade pode haver em Benedita?
- Ué, disse
o freguês madrugador. Não viu as mãos dela?
– Não, respondeu curioso o mestre-de-obras, Mineirão.
– Tão grávidas.
Mineirão caiu na
gargalhada.
– Que machão!!!
– Não brinca, Mineirão. As mãos dela estão inchadas.
Um pequeno silêncio
apossou-se dos três. Silêncio medido aos olhos parados. Até que mãos
deliberassem.
Mineirão gesticulou
e se foi,
– Vem cá, Mineirão!
O homem voltou. Resoluto
de recado.
– É isso mesmo, meu amigo. Tá com as mãos inchadas.
– Isso passa.
– Passa não. É alergia ao sabão em pó e requer cuidados.
– Por que não troca de sabão?
– Teimosia. Nega burra.
Mineirão pegou das
coisas. Bem zangado. Irritado. Desceu o morro. Deu um berro.
– Vou passar, nela, um sabão!!!
O freguês madrugador
tomou de um trago. Escorregando pela garganta. Até chorou.
– Puta merda! Parece arame farpado.
O dia foi assim. Preocupante
aos amigos de Benedita. Mineirão trabalhou de mau humor mas não fez
lambanças e o freguês madrugador esticou o dia todo na cachaça –
a pretexto – e Anáscio se distraiu com outros pretextadores.
Na cidade, nada de
novo. A rotina nauseal vinda dos contrastes. O pão subiu. Tiroteio
no morro de São Carlos, embora o santo. As empregadas domésticas com
muito mais direitos que deveres. Arrocho salarial e um sábia lei aumentando
os proventos dos representantes do povo, legitimamente eleitos pelo
voto direto. Diretíssimo. Quem virou “cobra-de-língua” foi o Ministro
da Fazenda, que ameaçou renunciar. Emissão de títulos de dívida
pública. O Tribunal de Contas descobriu quatro mil e quinhentas nomeações
irregulares.
Uma tarde bonita.
De brilhar maravilhoso. Os últimos raios de um sol travesso e inquisidor
cobriam o horizonte com ouro despedido e sem forças para voltar. Nuvens
tomavam cores esparsas e os motoristas levantavam mãos de reivindicações.
Do taxímetro. Da grana. Da pressa. Da praça.
Aos poucos, uma luz
invejosa dava graças apontando a certeza de uma noite acobertadora
e misteriosa. Um cinza se apossou das almas cinsmarentas e a favela
do morro da Formiga foi pinicando lâmpadas pelas vielas e por seus
becos ameaçadores. Lá embaixo, na cidade, um tremelicar de oferendas
espargia coloridos de cartazes sensuais, outros mais, sexuais mesmo
à noite boêmia e aos literatos embutidos pelas bibliotecas onde liam
vida – sempre faias – aos encontros de páginas viscerais. Nunca
apagadas. Noite a dentro, Salustiana e Benedita regressavam. Já com
dores. A primeira, nas ancas resolutas. A segunda, às mãos inchadas.
Mineirão entrou barraco e passou a carraspana prometida em Benedita.
Olhos se fecharam ao luar divagante e anfitrião de momentos mais saudáveis.
Anáscio admirou a “dura” dura de Mineirão.
– Assim é que se diz.
– E digo mais.
– Se for preciso. É lógico!
O freguês madrugador
talvez emendasse novos pretextos pelos fundos da birosca na desculpa
do notável procedimento de Mineirão nas exigidas circunstâncias.
Benedita quis um trago que Anáscio não deu. Salustiana deitou bunda
e Mineirão se fez, de novo, aos travesseiros. Fora um dia de grandes
decisões. As janelas se fecharam à noite imensa e a favela do morro
da Formiga disse adeus ao dia inteiro. Sem saber que o freguês pretextador
aborcara ao fundo mesmo, com cara de porrador.
Ligar fatos é fazer
vida. Coisa tola de almanaque. Dá enredo.